Há 15 anos – Mario Bauer estréia na F1

Ayrton Senna, Brazilian GP 1993 Isto mesmo: No dia 28 de março de 1993 aconteceu em Interlagos a minha estréia em um GP de Fórmula 1… como jornalista oficialmente credenciado pela FIA. E que lembrança se tornou aquela corrida, hein? Arrepia até hoje de lembrar o autódromo todo vibrando com a vitória do Ayrton Senna – a ultima dele em casa.


Naquela época vivia na Alemanha e curtia, já que tive que encerrar a carreira de piloto, relatar sobre carros de rua e de competição que testava com freqüência para algumas revistas. Além dos test drives fui chamado também para escrever avaliações de pré-temporada sobre uma variedade de campeonatos. Já que o meu estilo parecia agradar, resolvi aproveitar os meus contatos e inventei entrevistar o Nelson Piquet – na época ainda um amigo – e o Ayrton Senna, ex-adversário na Formula Ford 2000. O Nelson tinha se recuperado mais ou menos da horrível acidente em Indianápolis, mas não falava nem à paulada com a imprensa. E o Ayrton estava em uma fase de descobrir o mundo dos negócios e tinha até lançado a sua empresa, promovendo a marca Senna.

Nelson Piquet, Indianapolis 1992

Já que ninguém tinha como oferecer estas matérias foi moleza vendê-las para uma revista especializada alemã. Liguei então para a FIA em Paris e pedi informação sobre o procedimento de credenciamento. Conversei com uma moça bastante atenciosa, acho que o nome dela era Sally, e que me concedeu uma credencial de free lancer para um evento, mesmo com o prazo de pedido já vencido, mas que teria que enviar cópia do trabalho para eles em seguida. Beleza, fiz reserva do vôo pra São Paulo, fiz a mala e me mandei rumo a minha cidade natal. Com a ansiedade de estrear como jornalista de Formula 1 cheguei a Guarulhos cedinho na manhã da sexta-feira do GP. Peguei um táxi para o Hotel Transamérica, onde a FIA entrega as credenciais aos jornalistas até hoje. Só que não havia credencial alguma para mim. Pior: Ninguém se empenhava para descobrir por onde a minha credencial, oficialmente concedida ale do prazo. Não tinha como imaginar que este seria o primeiro golpe de muitos deste tipo que certo personagem da FIA aprontaria comigo dali pra frente. Mas essa eu conte em outra ocasião.

Lá estava eu no saguão do Transamérica, pensando no que fazer agora. Nisto encontro o Willy Weber, empresário do Schumi e que conhecia desde a época em que ele pilotava um Formula 3 com banco de couro (…), e o Harry Hawelka. Sobre este ultimo já relatei por aqui, era o nutricionista/fisioterapeuta da Benetton e se tornaria um grande amigo. Resolveram me dar carona até o circuito e que deveria resolver as coisas por lá. Havia um amigo do Michael acompanhando, então chegamos de carro lotado no portão do autódromo, onde todo mundo tinha que mostrar o passe da FIA. Os outros estava com os passes da Benetton e foram mostrando e eu… acabei mostrando o meu cartão de milhagem da empresa aérea. E quando o cara olhou mandei o Harry descer a bote e… tchum, tava dentro. Jeitinho brasileiro, sabe? Uma vez na área do paddock faltava o portão que dava acesso ao. Ali parava cada personagem conhecido, jornalistas, fotógrafos, membros de equipe e pedia para entregar uma notinha ao Martin Whitaker na sala de imprensa. A época o Martin era o assessor de imprensa da FIA nos GPs e F1 e quando a mesa dele se encheu daquelas notinhas minhas, resolveu descer ao portão para ver que raios estava acontecendo, quem seria este Mario Bauer.

Martin Whitaker, 2007

Uma vez relatada a história ao Martin, ele foi pegar uma credencial de imprensa oficial da FIA e me entregou o passe sem rodeio. O Martin me salvaria a pele várias vezes durante a temporada, aplicando sensatez onda a FIA costumava demonstrar falta da mesma. Enfim, meu primeiro compromisso profissional começava ali e a primeira coisa que pesquisei foi a retirada oficial da equipe March de F1 do Mundial. A ex-equipe de Max Mosley tinha ainda embarcado para a etapa de abertura em Kyalami, mas faltaram os trocados para pagar os motores da Ilmor e, em conseqüência do suíço recusar levar calote, a equipe não teve outro jeito senão desistir. Depois da Brabham, da Pacific e da equipe espanhol Bravo, cujo projeto foi realizado pela Simtek de Nick Wirth, mas não foi adiante, a March tornou-se mais uma vítima da recessão da época.

As Williams-Renault de Alain Prost e Damon Hill pareciam – como na etapa anterior na África do Sul – imbatíveis e ocuparam devidamente a primeira fila com o francês marcando a pole. Atrás destes mísseis azul-amarelos e de motores V10 alinhavam as equipes sem-oficiais da Ford e seus V8s. Ayrton Senna (McLaren-Ford) e Michael Schumacher (Benetton-Ford) na segunda fila, Michael Andretti (McLaren-Ford) e Riccardo Patrese (Benetton-Ford) na terceira. Logo atrás JJ Lehto com a Sauber e Jean Alesi e sua Ferrari. O Outro Sauber de Karl Wendlinger e o Ligier de Mark Blundell na fila seguinte.

Mike A

Senna largou muito bem e conseguiu passar por Hill na primeira freada, tentando não perder o contato com o Prost. Mais para trás o Andretti e o Berger se estranharam, os dois batem no muro e a McLaren sai voando por cima da Ferrari. Conheço dois fotógrafos alemães que comemoram esta data como segundo aniversário. Por sorte ninguém se feriu. Na ponta o Prost abre vantagem ao Senna que faz de tudo para manter o Hill atrás dele. Mas na 11ª volta não temos como resistir à superioridade da super-máquina, o FW15C. O tricampeão é obrigado a ceder ao piloto novato, agora ocupa a 3ª posição na frente de Schumacher. Pior: recebe uma penalidade de 10-segundos por ultrapassagem sob bandeira amarela e isto parece o fim das esperanças de Senna enquanto subir ao pódio.

Mas feito encomenda, um temporal desce em Interlagos, a começar pelo retão, e surpreende Aguri Suzuki e o compatriota Ukyo Katayama. Ambos perdem controle e batem no muro dos boxes. Senna parou para trocar pneus e só após disto veio receber a „multa“. Enquanto isto os boxe já estavam em caos, e a Benetton de Schumacher cai do macaco atrasando o alemão. Christian Fittipaldi e o líder Alain Prost, prestes a colocar uma volta no brasileiro, ambos não entenderam as chamadas das suas equipes e Christian acabou rodando, parando de contramão após a elevação da freada da primeira curva. O francês é surpreendido tanto pela quantia de água na pista como pela Minardi que de repente surge no trajeto e acaba escorregando ao encontro do carro do brasileiro. Um momento histórico, pois pela primeira vez entre em ação o Safety Car – a versão F1 do carro madrinha – em um GP. Momento de confusão para os pilotos, pelo que parece, já que o Alesi passou vários carros atrás do carro madrinha. O que não pode, Jean!

Ayrton Senna & Damon Hill, 1993 Brazilian GP

A equipe Lotus foi a primeira a reagir assim que o sol voltou a brilhar e chamou o Johnny Herbert logo após a re-largada para trocar de volta aos pneus slick, mesma coisa para o Alex Zanardi. Senna no entretempo levantou a galera nas arquibancadas passando por Hill na freada da Ferradura ainda no molhado e o inglês parecia conformado em conquistar pelo menos o seu primeiro pódio. Estava de bom tamanho, afinal era somente a sua quarta corrida de F1. Alesi, advertido pelas maluquices atrás do carro madrinha, e Schumacher ambos passam pelos boxes para pagar as devidas penalidades com um stop-go cada. Mas o alemão ainda consegue arrancar mesmo assim no finalzinho o 3º lugar do Herbert que acabou em 4º à frente de Blundell e Zanardi.

A galera no autódromo nem prestava mais atenção a estes detalhes e fez o maior carnaval pra celebrar a 2ª vitória de Senna em casa com uma invasão de pista que parou a volta de honra do tricampeão. A McLaren também tinha motivos de sobra para celebrar. Foi a 100ª vitória da marca em GPs de Formula 1. Mas já na 2a-feira fui encontrar o Ayrton lá na rua Olávo Egídio, o prédio onde hoje continua o Instituto Ayrton Senna. Mesmo com pouco tempo disponível o Ayrton foi antecioso como sempre, assim como e toda a sua equipe. E como seus familiares vem me recebendo desde então. Do „amigo“ Piquet não posso dizer a mesma coisa, mas isto conto numa outra.

Ayrton Senna, Winner 1993 Brazilian GP

Grande Prêmio do Brasil de Formula 1, São Paulo.

Pole Position: Alain Prost, Williams FW15C-Renault, 1m 15.866s, 205.230 km/h de média.

Resultado: Vencedor – Ayrton Senna, McLaren MP4/8-Ford, 71 voltas x 4,325 km = 307.075 km distância total em 1h51m15.485s.

2) Damon Hill, Williams FW15C-Renault + 16.625s
3) Michael Schumacher, Benetton B193-Ford + 45.436s
4) Johnny Herbert, Lotus 107B-Ford + 46.557
5) Mark Blundell, Ligier JS37-Renault + 52.127
6) Alessando Zanardi, Lotus 107B-Ford + 1 lap

Melhor volta: Michael Schumacher, Benetton B193-Ford, 1m 20.024s na volta 61 = 194.567 km/h de média.

Destaques entre os pilotos:

– Ayrton Senna liderou um GP pela 80ª vez (novo recorde)

– Ayrton Senna liderou por 2723 voltas em GPs (novo recorde)

– Riccardo Patrese largou pela 243ª vez em um GP (novo recorde)

– Ayrton Senna vence pela e ultima vez em casa.

– Damon Hill conquista o pódio em um GP.

Destaques entre as equipes, construtores e fornecedores:

– McLaren conquista a 100ª vitória em GPs

– Renault conquista a 75ª pole position como fabricante de motores

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12 Gedanken zu “Há 15 anos – Mario Bauer estréia na F1

  1. Haha, mas quem disse que estréia só acontece no volante…?

    Que maldade a minha 😀

    Alguém quie fazer um test drive como tradutor…? Inglês tá pronto, mas tenho que escrever matérias sobre NASCAR e IRL…

  2. Putz, já se parraram 15 anos… ainda me é clara a lembrança do Senna desfilando no Pace Car, um Tempra… bons tempos aqueles.
    Vou ver se arrisco traduzir o texto neta tarde. Mando por e-mail ou por aqui mesmo?

  3. Corrigindo: onde tem „parraram“, leia-se „passaram“… isto não foi um bom prenúncio para a tradução, HAHAHAHA….

    E Mario, as matérias sobre Nascar e IRL irão para o Motorsport Aktuell? Gostaria de ver análises suas sobre a IRL, gosto dos monopostos americanos – das corridas: os carros são medonhos!

  4. Mário, se tu me mandar por mail as análises em inglês posso te entregar amanhã, depois da festa de sábado.
    abraços

  5. olá Mario
    eu quero fazer o test drive da tradução do inglês pra português; como fazer?

  6. Boa lembrança Mário, mas gostaria de saber mais sobre o Piquet (independente do caráter ele era um grande piloto). As melhores lembranças que tenho da F1 tinham ele como protagonista, como a ilária cena dele brigando com um piloto (?) após um esbarrão num GP.
    Abraço e não desista do blog.

  7. Incrível como a memória da gente nos trai. Essa foto do Piquet eu já tinha visto um monte de vezes. Mas agora ao ver de novo me deu uma coisa no estomago, me arrepiei acho mais que na primeira vez, não lembrava simplesmente que a cabeça dele quase bate no muro, e que não sobrou lugar para as pernas. Putz vou, vou tomar um copo da agua com açucar e um calmante.

  8. É isso mesmo Vítor, muito obrigado. O Salazar era retardatário e esbarrou na traseira do Piquet.
    Abraço.

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