Rafael Sperafico – Uma fatalidade anunciada

Sempre que “um de nós” perde a vida exercendo aquilo que mais gosta de fazer na vida, os fãs do esporte, tanto os que militam no meio como aqueles que o acompanham e vibram das arquibancadas ou em frente à TV, sentem com a família e os amigos de quem se foi de forma trágica e inesperada. Foi assim no domingo em Interlagos, lamentamos a morte do jovem Rafael Sperafico.


E, portanto, antes de mais nada, gostaria de expressar as condolências à família e aos amigos de Rafael Sperafico.

Neste blog costumo exclusivamente tratar de assuntos referentes a Formula 1 ou a história dos Grandes Prêmios. Mas mesmo antes do acidente pensava em abrir uma exceção e comentar o lançamento desta nova categoria pick-up da VICAR. Não necessariamente de forma positiva, como vocês ainda vão entender. O acidente em si foi claramente do pior tipo, uma colisão em ângulo de 90 graus com impacto na lateral do carro, no lado e altura do piloto. O Rafael não tinha chance de sobrevivência. Não naquele tipo de chassi, uma construção amadora, criada por um soldador argentino, sem nível de engenharia algum, nem mesmo nas suspensões.

Comparamos impactos mais severos como no GP da Áustria no A1-Ring em 2002, quando o câmbio da Sauber descontrolada de Nick Heidfeld atingiu em cheio a lateral da Jordan de Takuma Sato, ou o acidente de Tom Kristensen no inicio da temporada da DTM alemã em Hockenheim, levanta-se – finalmente – a pergunta sobre a segurança da StockCar V8 e suas categorias adjuntas. Tanto na F1 como na DTM alemã os pilotos são protegidos por uma célula de carbono altamente resistente. Pois se Sato e Kristensen sobreviveram, não havia o porquê Rafael Sperafico virar uma vítima da ganância de todos estes que ganham muito bem com o empreendimento StockCar. Aliás, Eu considero muita sorte, se esta expressão pode ser vista como adequada nestas circunstancias tristes, que não tivemos que lamentar mais fatalidades em meio aos pilotos da StockCar.

Acompanhei o raciocínio dos meus colegas e, por incrível que pareça, poucos parecem querer enfiar o dedo na ferida. Eis alguns argumentos:

1) “Ninguém tem culpa, foi uma fatalidade” – Constatação perigosíssima! Ainda bem que a Formula 1 não descansou em cima de uma constatação tão conformista e reagiu depois do GP de San Marino de 1994. O trabalho em cima da segurança poupou muitos pilotos de se tornarem a próxima vitima de uma fatalidade.

2) “Os pilotos são agressivos demais, há muitos toques” – Nenhum piloto deixa a vida por causa de um toque qualquer, mas porque o sistema de segurança falhou. Ou da pista, ou do carro… ou ambos.

3) “A Curva do Café é perigosa” – Estamos falando do autódromo mais seguro do país, se não for da América Latina. De cara posso mencionar uma meia dúzia de trajetos em autódromos brasileiros onde a mesma situação poderia ter ocorrido. Inclusive na Curva do Sol, onde, todavia alguém roda e fica exposto. E que tal a rodada do Cacá, que por sorte ficou com o lado direito do carro exposto? E que por mais sorte ainda não foi atingido

4) “Os carros da Stock são seguros, vide o acidente do Gualter Salles em Buenos Aires” – Isto é mera auto-enganação. O mais espetacular que tenha sido, a dinâmica do acidente do Gualtinho foi muito favorável, pois o carro só bateu no chão com as extremidades mais cumpridas, a frente e a traseira. O Bragantini teve MUITA sorte no ano passado em Tarumá ao acertar a entrada do box com o lado direito.

5) “O perigo faz parte do automobilismo” – Sim, isto não tem como contestar. Mas também não tem como aceitar que não haja esforços por parte da VICAR em viabilizar o necessário para criar uma verdadeira célula de sobrevivência para os pilotos e assim aumentar as chances de sobrevivência em caso de acidente.

Se falei da ganância em um trecho deste texto, quero especificar: O chassi em questão foi apresentado há vários anos e a transformação da StockCar em seguida foi significante. Mas não trabalhar em cima das óbvias falhas de segurança que este conjunto apresentava desde o início e à primeira vista, é no mínimo um tremendo descuido. Não há como negar que a StockCar anda muito bem das pernas financeiramente. Qual então a desculpa para a total ausência da categoria de reformular este gaiola antiquada para um carro de corrida do século 21?

A ZF já tinha apresentado planos para um chassi mais moderno, mas os donos de equipes recusaram, pois não queriam bancar o investimento. Ficou assim. Nem a VICAR, nem a CBA criarem uma projeção de implementar o produto melhorado à médio prazo. Em vez disto esta peça de engenharia precária não só prevalece na StockCar V8, como ganhou abrangência na Light e agora ainda vão querer vender este ferro velho para uma categoria de Pick-up. ISTO, caros amigos, é colocar a ganância à frente da segurança.

Quando vi este chassi tubular pela primeira vez no seu lançamento, não acreditei no que vi. As falhas em termos de segurança são inúmeras:

1) Não há nenhuma separação entre a baia do motor e do piloto! Inédito! Nunca vi nada igual. Se houver um vazamento de óleo ou combustível… nem quero pensar.

2) Pelo menos uma das bombas de gasolina fica dentro do cockpit ao lado direito do piloto. Pelo menos era assim dois anos atrás. Tem que rezar para que nada se solte ou rompe ali…

3) A posição de pilotagem já torna a saída do piloto lúcido difícil, qualquer resgate de um piloto inconsciente representa um problema enorme, pois a coluna B lateral fica à altura da bacia do piloto dificultando imensamente o acesso do pessoal de resgate.

4) Os pedais ficam ao lado do cambio. Um impacto lateral esmagaria os pés do piloto e o prenderia às ferragens.

5) A coluna do volante é sólida. Um impacto frontal causaria a coluna avançar em direção ao piloto, cujo corpo seria lançado para frente devido às forças gravitacionais de tal impacto. O encontro com o volante poderia ser fatal.

6) Esta não tenho como confirmar, mas há quem afirme que os tanques da StockCar não são aqueles de espuma usados em todas as categorias sancionadas pela FIA. Esta parte, sinceramente, não posso confirmar. Mas se for verdade, tivemos uma sorte incrível de não ter presenciado uma catástrofe até hoje.

Não há culpados neste lamentável episódio do domingo? Há sim, e tomara que a perda do Rafael Sperafico pese e muito na consciência deles. E para que a sua morte não tenha sido totalmente em vão, convido os responsáveis a trabalharam COM URGENCIA no aspecto de segurança. A Formula 1 passou por este doloroso processo, a CBA agora não tem outra opção a não ser reagir da mesma forma como a FIA o fez em 1994. Qualquer outra postura e a próxima fatalidade verá os nomes dos responsáveis citados ao lado do da vitima. Aí sim teremos como apontar para quem permitiu que algo assim se repetisse.

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19 Gedanken zu “Rafael Sperafico – Uma fatalidade anunciada

  1. Mário,

    Incrível, cara… Acabei de comentar o seguinte no post „Todo mundo entendeu“:

    „Uma vez mais faço coro com alguns dos seus leitores aqui. Cada vez mais vc se descola da opinião geral e redundante desse jornalismo café com leite tupiniquim especializado em automobilismo.“

    Nem havia lido esse texto ainda e me deparo com esse seu diagnóstico „descolado“ da maioria dos textos que li por aí.

    Obrigado!

  2. Mário,

    Para exemplificar e documentar o seu texto, segue um link do youtube que o Ico postou, com um acidente na DTM que, nas palavras do Ico, tem uma dinâmica muito parecida com o de ontem:

    Abraços!

  3. Mais uma vez, Mário, voce é o unico a falar sem meias palavras o que deve ser falado. E de alguma forma algo assim já era esperado, dada a fragilidade desses carros, absurda. Esse lance da bomba de gasolina e de oleo é fato, ficam a direita do piloto, salvo engano, o Caca teve um problema do tipo de disse que saia oleo dentro do carro. E repito o que escrevi em outros blogs, a Stock é uma excrescencia, um lixo que não agrega nada ao cenário automobilistico nacional, pelo contrário, drena os recursos que antes fomentavam as categorias de Kart, Formulas menores e F3, e assim asfixia os ultimos talentos que faziam parte de nossa „tradição“ no automobilismo estrangeiro. Seria de bom grado se os gananciosos dirigentes e os palhaços desse circo repensassem pra onde estão indo, antes que algo assim ocorra novamente.

  4. Grande Mário, belo ponto de vista. Todos parecem querer botar panos quentes em algo que é inadmissível.

    Mesmo a estrutura tubular do Stock não parece corretamente dimensionada ou fabricada. Basta notar que no acidente, a estrutura inteira se deformou a um ponto de quase todas as peças da carenagem serem instantaneamente cuspidas para fora, explodidas. O corpo do piloto foi atingido direto ou indiretamente pelo carro do Renato, é uma condição inaceitável para um carro de corridas do século XXI, ainda mais onde tanto dinheiro circula. Há rumores circulando inclusive de que o banco ou se partiu ou foi arrancado de seus pontos de fixação. Um absurdo completo.

    Apenas não concordo (em parte) em relação à Subida do Café. A curva em si não é perigosa, concordo com isso, mas o sistema de contenção usado é inaceitável, pois joga o carro de volta à pista. Já houveram acidentes anteriormente (inclusive na F1), com a sorte dos carros danificados e parados no meio da pista não serem atingidos por ninguém. Vários pilotos reclamam disso há anos, mas as requisições nunca são atendidas.

    O ponto onde geralmente perde-se o controle na Curva do Sol é justamente em sua entrada, quando sai-se „torto“ demais da segunda perna do „S“ do Senna e roda-se. E ali, há muita visibilidade. E havendo um toque no meio daquela curva no estilo do Sperafico, há área de escape sobrando, inclusive para se efetuar desvios.

    Mas na Subida do Café, estamos falando de um trecho proporcionalmente estreito, em subida cega, com curva à esquerda. A visibilidade é reduzida a níveis críticos, e é um trecho WOT (wide open throttle). A última coisa que se quer é ter um carro parado no meio da pista em um trecho onde a visibilidade é precária e a aceleração é total.

    Massss… no final das contas, a grande sujeira está na estrutura dos Stock Car. Mesmo sendo um trecho que reserva perigo e que precisa ser revisto, a morte ocorreu por falha da estrutura do bólido. Isso não pode ser ignorado nem perdido de vista. Não se deve aceitar esta morte como „parte do automobilismo“, pois isso é meio caminho andado para um conformismo que vai abrir espaço para novas baixas.

    []s

  5. Mário, parabéns.
    Meu ponto de vista, acho que a morte do Rafael, do jeito que foi o acidente, seria muito difícil ele escapar desta. Foi uma fatalidade, e não existe um só fator em uma fatalidade, é uma série de fatores que ocorrem aleatoreamente e que, quando combinados resultam em cenas assim.
    Mas não posso deixar de te dar a razão. Em todas as categorias do automobilismo a procura pela segurança é incansável, na Stock não. É uma categoria antiquada, com carros antiquados, de mecânica antiquada e, a pior parte, de estrutura antiquada. Não gosto da Stock, por motivos que não vou comentar, mas o modo como a elevam no Brasil é, no mínimo, ridículo. São carros sem tecnologia, uns iguais aos outros, um esqueleto metálico forrado por uma carcaça de fibra mais fraca que a porta do meu armário. Não que seja necessário usar carbono, pensando em termos financeiros, mas repensar a estrutura é fundamental. O material também. Não tenho maiores informações, mas pelo que eu lí a respeito a gaiola é feita de aço carbono, uma liga simples que tem n particularidades com relação a uma aplicação como esta. Nem mesmo no campeonato Brasileiro de Rally as gaiolas são feitas dessa liga, geralmente se ua uma liga cromo-molibdênio, mais leve e mais resistente. Outra declaração que me chamou a atençao foi a de Ingo, que falava sobre a necessidade do uso de pneus naquela parte do traçado, vendo que, se fosse só o muro, o carro tenderia a escorregar e acompanhar o muro, sem ser jogado violentamente de volta. Poderia se usar um sistema de amortecimento no muro, como nos circuitos americanos.

    Enfim, parabéns pelo post.

  6. adendo: Quando mencionei o CBR, não quiz inferiorizar a categoria, apenas lembrar que o Rally no Brasil é muito pouco divulgado e a categoria quase não tem investimentos, tanto que se não fosse a Peugeot, hoje ela provavelmente estaria extinta. Salvo uma ou duas equipes de fábrica, os pilotos são basicamente gentlemen drivers que bancam sua própria carreira

  7. Mario,

    Concordo inteiramente com você. Fatalidades não existem no automobilismo. Nada acontece por acaso. Assim como em desastres de avião, por exemplo, tragédias como essa são sempre causadas por um conjunto de erros e infortúnios, que acabam resultando no pior. O acidente do Sperafico talvez não pudesse ser evitado, mas tinha como ser previsto.

    Grande abraço,

    Gustavo Coelho

  8. Mais uma vez, excelente post. Como de costume, colocando o dedo na ferida. Vendo as coisas do outro lado do Atlântico, fica-se espantado como é que uma categoria dessas usa esse tipo de material, quando no WTCC e no DTM, é tudo de carbono e a célula de sobrevivência é definitivamente mais forte do que estruturas tubulares em aluminio…

    Só uma pergunta: aí já é obrigatório o uso do HANS? É que aqui, nas nossas categorias nacionais, vai ser obrigatório a partir de 2008…

  9. Speeder, obrigatório creio que não, mas a maioria usa.

    Mas devo constatar mais duas cosias:

    A gaiola simplesmente dobrou para dentro, não ofereceu resistência alguma, os tubos laterais foram parar quase no cardã. A equipe de resgate encontrou o piloto com parada cardio-respiratória e não conseguiu reverter este quadro perante o que encontraram.

    O piloto Renato Russo, que sem culpa própria acabou acertando o carro atravessado do Rafael Sperafico, passou por uma cirurgia no abdomen e passa relaitivamente bem. Foi o volante? A coluna de direção? O que causou esta lesão incomum?

  10. Excelente materia Mário.

    Será que o pessoal da Stock vai colocar um carrinho desses num crash-test????

    Agora algo me deixou estarrecido.

    Estava na cozinha fazendo um pão com ovo, e vendo o Jornal Nacional.

    Todo mundo tirando o seu da reta Montagner dizem que o Charlie Whiting que mandou colocar a barreira de pneu, o Zeca Giafonne defendendo a ZF , dizendo que a estrutura de aço-carbono é segura.

    E vem a cereja do bolo.

    Antonio Jorge Neto diz:

    „NEM UM TANQUE DE GUERRA AGUENTARIA ÀQUELE IMPACTO“

    E acaba a reportagem.

  11. Mário,

    Muito bom mesmo seu texto. Teve coragem pra colocar o dedo na ferida. Concordo que não existe fatalidade em acidentes.
    Está parecendo as desculpas que as autoridades dão no RJ:“ Foi uma bala perdida, uma fatalidade.“
    Isto só serve pra mascarar a realidade, ou seja, negligência, imprudência, imperícia e condição insegura. Que invariavelmente resultam em tragédias.
    Só faltam dizer que a culpa foi do sol, da lua, correntes marítimas ou do aquecimento global.

  12. Muito boa essa matéria, possui um diferencial, algo que normalmente não podemos observar em nosso dia a dia, se não fosse um tema tão triste, até diria que gostei, porém cabe dizer que qualquer pessoa „homem médio“, ao ler conseguirá entender realmente o que aconteceu o porque ficará segundo a conclusão de cada um, e vejamos como será o desfecho para o futuro, tendo em vista que no caso em epígrafe nada mais nos resta fazer, obrigada pelo seu ótimo trabalho e parabens pelo seu brilhante conhecimento e didática em sua exposição. Até…

  13. O triste de tudo isso É que passam-se campeonatos inteiros e raramente a segurança ou questionamentosa técnicos são efetivamente analisados e discutidos.O que aconteceu em interlagos foi uma tragédiaAnunciada ou não, ela aconteceu e não adianta buscar culpados pois só vai estourar para o lado mais fraco ou até mesmo pra quem não pode se defender. Tem que se prevalecer o bom senso, e recuperar as energias para continuar a caminhada!!!Quanto aos pneus, concordo com Ingo Hoffman, que disse que a proteção na pista está errada, porém, concordo com Carlos Montagner quando diz que a FIA tb é responsavel pois faz vistorias e não acusa nada.

  14. Mário e amigos do blog

    Acho que existiu mais um ponto negativo na barreira de pneus que contribuiu para a tragédia de modo significativo.

    Além de devolver o carro para a pista os pneus de proteção também diminuíram muito a velocidade do carro de Rafael.

    Eu sou ruim em comunicação, mas espero contar com a paciência de vocês. Se o carro batesse no muro e resvalasse como nos ovais a diferença entre a velocidade do carro do Rafael e do R. Russo não seria tão grande.

    Por exemplo, se um carro está a 190km/h e outro 120km/h o efeito seria o mesmo que bater 70km/h a 9O graus. Mas se a velocidade do carro que bateu nos pneus cair para 60 km/h aí o efeito seria o mesmo que bater 130km/h a 90 graus.

    Mas apesar da culpa do pneus (e da estrutura do carro coluna de direção, que parece não ter sido projetada para o impacto lateral etc) essa não é solução definitiva, que seria mesmo aumentar a área se escape. Uma obra de grandes proporções que implica até em eliminar parte da arquibancada. Coisa difícil de acontecer.

  15. No post acima (eu bem que avisei que sou péssimo em comunicação) o que eu quiz dizer é que seria o mesmo que o carro bater a 90 graus no (à 70km/h no primeiro caso e à 130km/h no segundo no segundo caso) num carro que estivesse atravessado e parado na pista.

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