De cães e porcos a Niki e Autosportgate

Santa’s Little Helper Estes dias circulou por aí que o Niki Lauda teria chamado o Fernando Alonso de “cachorro”. Teria o austríaco pronunciado a palavra “perro” em espanhol? Ou será que estava falando inglês e disse “dog”? Parece-me mais correto que ele usou a palavra alemã “Sauhund” na sua típica maneira irreverente e com o devido sotaque austríaco. Além do fato que o ex-campeão nem se referiu ao Alonso diretamente: alguém sabe o que quer dizer “Sauhund”…?

A notícia logo fez a volta ao mundo e, obviamente, foi interpretada conforme cada hábito local que corresponde à palavra cachorro. Não preciso entrar em detalhes o que isto significa no Brasil, mas já quem traduziu isto para inglês entendeu bulufas e deu uma conotação lamentável. No assunto de sites que aplicam estas verdadeiras porcarias de programinhas de soft de tradução instantânea não pretendo sequer me aprofundar.

Eis uma frase que o jornal alemão “Bild” publicou e só o que se encontra entre aspas é o que o Lauda disse. Ou seja, da forma como este tipo de jornal sensacionalista age, provavelmente sequer disse as duas colocações na mesma frase:

Prost sei „ein Sauhund“ gewesen, was Politik außerhalb der Strecke betroffen habe. „Aber Alonso ist schlimmer“, urteilte Lauda über den Spanier.

Tradução: Prost era “um malandro” enquanto à política fora das pistas. “Mas o Alonso é além disto”, é assim que Lauda avalia o espanhol.

Niki Lauda 2007

Vide que a palavra “Sauhund” se compõe das palavras „Sau“ (porco) e „Hund“ (cão), mas obviamente não é nenhum mix de vira-lata com leitão. É uma gíria que pode ser interpretada de muitas formas, creio que neste contexto malandrão, espertão, talvez manipulador seja a tradução adequada. Diga-se de passagem, que os austríacos, diferentes dos alemães, costumam usar a expressão „Hund“ para uma pessoa esperta, assim como por aqui se diria “o cara é fera” ou “é raposa”.

O que tem a ver com “Autosportgate”? Este episódio de mais um plágio de uma matéria alemã me lembra do episódio em setembro de 2005, quando o Rubinho deu as suas explicações aqui no Brasil sobre o termino prematuro do seu contrato com a Ferrari. Escrevi uma matéria a respeito, publicada na revista Motorsport Aktuell. Imagina a minha surpresa, quando vejo exatamente a mesma matéria, traduzida palavra por palavra em inglês publicada na página nove da Autosport Magazine inglesa. Sem crédito, sem que jamais tivessem a intenção de me pagar honorários.

O assunto levou meses e somente quando contatei a diretoria ameaçando tornar os métodos de a Autosport aproveitar matérias sem adquirir os devidos direitos autorias, algo bastante sério na Inglaterra, é que eles acordaram e houve um acordo extrajudicial em altura aceitável. Será que a Autosport tem moral de se pronunciar sobre uso de informações privilegiadas…?

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10 Gedanken zu “De cães e porcos a Niki e Autosportgate

  1. venho a 1 mes +ou-, acompanhando seu blog diariamente e vejo muita coerencia e credibilidade nas informaçoes que vc passa aos leitores do seu blog,enfim parabens pela sua competencia e maneira de fazer jornalismo ou publicar materias(ideias) confiaveis sobre o automobilismo e de um ponto de vista bem logico

  2. Sorry! Soll nicht wieder vorkommen. E é Asterix, não asterístico =D
    O que realmente faltou foi o seu nome…

  3. Alonso é pior que todos esses adjetivos citados. Ele é arrogante sem sequer ter a „sorte, talento ou ajuda superior“ – como queira – que o Schummy teve.

    Prefiro Prost!!

    \o/

    ótimo blog, abraços

  4. Brilhante.
    Enquanto todos acham que Niki chamou o Alonso de cachorro pra baixo, Mário esclarece o que essa imprensa doida por matérias sensacionalistas não procura saber.
    Nunca acreditei mesmo que Niki chamaria Alonso de ‚cachorro‘ no sentido pejorativo da palavra.

  5. Mais uma vez, excelente Mário, vindo ao seu blog temos a oportunidade de nos vermos livres de cair na armadilha de julgar precipitadamente, confiando nas traduções de veículos considerados „importantes“, pq ficamos à mercê de uma tradução, principalmente quando é no sentido de gíria ou que tenha uso diferente em determinada cultura, como vc bem nos explicou. Também admiro o Niki Lauda, e num primeiro momento fiquei estupefato com isso, esperei mais um pouco e tive a felicidade de encontrar esse seu texto, agora sim as coisas se encaixam.

    A leitura do seu blog é obrigatória, tanto para nós que gostamos da F1 quanto para muitos jornalistas empregados em grandes veículos mas que disparam matérias como se estivessem trabalhando em tablóides pequenos e apelativos.

  6. Boa Mário!

    Eu confesso que acreditei que o Lauda teria dito isso mesmo, ele solta o verbo pra cima de quem for, e o Alonso anda numa fase moralmente abalada.

    O Bild mais uma vez aprontou, mérito do Marca que foi buscar a verdade contactando o tricampeão, que esclareceu tudo.

    Valeu Mário
    abs

  7. Mário,

    Você está coberto de razão. Não há dúvida de que o jornalismo atual passa por uma crise sem precedentes. A velocidade com a qual a notícia se propaga dá vazão a esse tipo de absurdo, em que a frase do Nick Lauda tem que ser desmontada linguisticamente para que se extraia a verdade explicita, ou implícita, ali, dependendo de que língua se fale. Achei absurdamente pesada a frase quando li, e custei a acreditar, como a maioria das pessoas aqui também, que Lauda fazia um julgamento desses sobre o Alonso. No entanto, gostaria de fazer também uma observação, Mário.

    Acompanho regularmente não apenas o seu BLOG, mas também BLOGS nacionais e internacionais, a grande imprensa internacional e os principais portais internacionais, garimpando aqui e ali notícias sobre a Formula 1. Vejo costumeiramente a ótima qualidade das discussões nesse veículos por parte do público que consome a informação que é publicada.

    Deixo claro que é um julgamento pessoal, mas tenho que dizer, Mário, com franqueza, que não é apenas a imprensa dita “especializada” que me parece amadora no Brasil, mas também o público, interessado na Formula 1, é extremamente amador. A Formula 1 parece ser uma onda que vai e vem ao sabor do aparecimento de um piloto brasileiro no cenário da categoria. E quando não há um destaque nacional, a onda vira uma marola. Ser honesto a respeito desse destaque nacional então, hoje o Massa, é crime de lesa a pátria.

    Vivemos então, Mário, diante do paradigma da Tostines: o jornalismo especializado não informa com competência nem forma um público capaz de ter senso crítico e de amar o automobilismo em si mesmo; mas esse público também é pouco crítico para extrair desse jornalismo “especializado” qualidade editorial sustentável e original.

    BLOGS como o seu, o do Ico e o do competente insider Lívio Orichio, são hoje os meios que se tem de quebrar esse paradigma e informar e formar um novo público, que ame o automobilismo em si como esporte e deixem-no independente das ondas e modas nacionais que resultam no que vemos hoje, um público desinformado, que consome informação de pouca qualidade e acrítico.

    Apenas um senão sobre os públicos dos BLOGS: uma parcela dele, sinto, está dividindo-se em torcida “pró ou contra”. Pró ou contra uma equipe, pró ou contra um piloto. A credibilidade, aferida por essa parcela de leitores dos BLOGS a jornalões, portais especializados, revistas ou o que seja, está diretamente vinculada a essa opinião “pró ou contra” que esse dado veículo supostamente emite. O que parece também empobrecedor sob o ponto de vista crítico e perigoso quanto a uma guetização do espaço. Veículo de mídia jornalístico com credibilidade e independência não é fã clube.

    Enfim, é fácil dizer “amém” para o que se lê. Estar no meio, amando a Formula 1 acima das marolas passageiras e marqueteiras, sendo crítico quanto a informação que se consome e fazendo julgamentos em cima de fatos, é que é difícil.

    Abraços e mais uma vez parabéns pelo espaço que a cada dia está melhor.

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