Alonso-Dennis: Nem namoro, nem amizade

Fernando Alonso & Ron Dennis, Malaysia 2007 A transcrição da reunião do conselho mundial de automobilismo revelou, entre outras coisas, que não há papo entre Fernando Alonso e Ron Dennis. Insisto que a ausência de amizade com o dono minoritário da equipe não é motivo para o piloto mais cobiçado do grid de procurar uma alternativa à melhor equipe da autalidade.

“Não conversamos mais”, mais ou menos assim Ron Dennis relatou o relacionamento que vive atualmente com Fernando Alonso. Vamos deixar o fator humano de lado só por um instante: Isto interessa? Não! Isto não muda o trabalho na pista em nada. E é só isto que importa. Enquanto Fernando se entende com o seu engenheiro Mark Slade e os mecânicos que trabalham no seu carro, o que é o caso, não há impedimento algum para o sucesso nas pistas.

Compare com uma multinacional. Você acha que o diretor de vendas (sei que uma comparação esquisita) de uma destas corporações grandes sai se abraçando com o CEO e se encontram em churrasco de fim de semana? Claro que não. Mas isto não muda nada na busca de resultados de uma empresa, visando sucesso em seu ramo. Claro que o Alonso é um astro do automobilismo e, portanto, não é sequer um empregado. Ele age, inclusive por motivo fiscal, como terceirizado. Sabia?

Fernando Alonso, Ron Dennis, Carlos Abbad, 2007

Vamos então ao fator humano: Personagens como Dennis, Todt e Briatore são ótimos na interpretação da mente humana, sabem quando é hora de agradar, passar a mão na cabeçinha, posar fazendo brincadeirinhas ou comemorando. Mas não há dúvida que quando o assunto se torna em obter resultados ou metas da empresa, ou impor as regras e condutas da casa, que os modos de chefão serão aplicados sem dó e privilégios. E nem todo mundo gosta de ser sujeito a tais imposições. Ou você gosta? Você é fã do seu chefe? Acha ele um cara legal, te paga bem e te dá todas as mordomias? Ele (ou ela) enxerga e reconhece o seu empenho pela empresa? Te recompensa pelas horas extras, feriados ou até fim de semanas que você sacrificou pelo bem da empresa? Tá vendo…?

Entre as temporadas de 2005 e 2006 Ron Dennis já sabia que ele está com um problema na mão. Com o rebelde Montoya ele não se entendia. O colombiano viva questionando os métodos estabelecidos dentro da equipe, não era diplomático, falava o que pensava. Ótimo para a imprensa, que adorava o “Monti”. Péssimo enquanto aos padrões do Ron. Ainda por cima o Räikkönen dava sinais que estava farto da falta de confiabilidade do equipamento. O Ron precisava contratar o Alonso o quanto antes, não havia sequer opção.

Nisto começaram as negociações e para Alonso era claro que a carreira dele só teria continuação no topo em uma equipe de ponta, com os maiores recursos disponíveis: Ferrari ou McLaren. E antes que Ferrari viesse conversar, lá estava o Ron, todo gentil, todo agradável, oferecendo um bom salário, o segundo melhor depois do Schumi para um jovem campeão mundial. Alonso aceitou, mesmo se estava claro que não há base de status de número 1 na equipe. Mas quem poderia aparecer pra incomodar? Nos bastidores parecia claro que Räikkönen não ia ficar. E não havia nenhuma ameaça séria, prestes a assinar para a McLaren.

Norbert Haug, Lewis Hamilton, Ron Dennis, 2007

O resto é história: Ron coloca o menino Hamilton ao lado dele para 2007. Se Coulthard se queixava do tratamento na equipe, porque Dennis e Häkkinen eram muito amigos, era previsível que em algum momento o quase filho de Ron Dennis ganharia aplausos do chefe. Só que ninguém esperava que fosse tão cedo. Alonso se sentiu cada vez mais traído, a situação dele na equipe não refletia os motivos pelos quais fora inicialmente contatado e depois contratado.

O desempenho fortalecia ainda mais a posição do inglês entre seus conterrâneos, que obviamente são na vasta maioria na McLaren. A declaração de Alonso antes de Montreal, que estaria sofrendo as conseqüências de ser um estrangeiro competindo com um inglês em uma equipe inglesa, não era somente coerente. Era politicamente favorável a ele. Pois se Hamilton continuasse a vencer ficaria óbvio ao público que a McLaren realmente parece favorecer o Hamilton.

Eu pessoalmente não acredito em favoritismo na McLaren, mas que psicologicamente e em certos pequenos, mas relevantes procedimentos Hamilton tem mais apoio, disto não duvido. E acabar com isto é praticamente impossível simplesmente na base do “gente fina”. Alonso sabia que só reverteria o quadro se tornando em predador. É o que fez. Primeiro passo: Farto de ter que compartilhar seus dados de acerto e sua experiência, desafiou a competência técnica dos engenheiros de Hamilton. Não são capazes da achar um acerto próprio? Desafio aceito, logo no GP de casa, tanto do piloto como da equipe. E Hamilton deu um show marcando pole. Só! A estratégia não combinava com o que se esperava das Ferrari, Alonso deixou Hamilton pra trás.

No Nürburgring o relacionamento entre Alonso e Dennis já estava tenso, justamente por causa deste episodio. Alonso vivia reclamando de que, por exemplo, a ordem de saída nos treinos classificatórios não deveria alternar. Ele, como bicampeão, deveria ter o direito de escolher o melhor momento junto ao seu engenheiro. Dennis impôs novamente as regras e procedimentos da casa. Aconteceu o que todo mundo presenciou. E o que expliquei com a minha matéria publicada na Motorsport Aktuell. Quando Alonso soube domingo de manhã que só ele sofreu uma penalidade, em conseqüência de algo que ele vivia reclamando o ano todo e que foi resultado de uma desobediência do adversário, o espanhol explodiu.

alonso-passes-massa.jpg

Na base do “você quer me ferrar, eu sei fazer também” procurou o Ron no domingo antes da prova. Conforme o relato de Dennis no conselho mundial, ele soube somente ali da existência de uma comunicação entre Coughlan e os pilotos sobre dados técnicos provenientes de Stepney. Pronto, a falta de respeito, assim pelo menos se sentia Alonso, e a ausência de uma aproximação ao fazer concessões explodiu ali na cara do Ron. Foi um jogo perigoso por parte do Alonso, mas, e ninguém sabe disto por certo até hoje, provavelmente já com a consciência que nada aconteceria a ele como piloto e suas chances no Mundial perante a FIA.

Tudo isto, enfim, agora já é história. Ron está sendo obrigado a fazer de tudo para manter o que ele vivia declarando, na época protegendo o Hamilton, que nenhum piloto será favorecido. Alonso conseguiu o que queria, não compartilha mais em detalhe seus acertos com o Hamilton, o que deu resultado na pista, e está determinado a vencer este Mundial por três motivos:

1) Porque perder não é opção pra alguém como Alonso;
2) Será o primeiro tricampeão desde Schumacher;
3) Pretende se “aposentar” depois de 2007… pra voltar em 2009

Fernando Alonso, McLaren MP4-22, 2007

Isto mesmo! Todo mundo especula para qual equipe Alonso vai se mudar, pois a situação estaria insustentável da forma que é na McLaren. Acontece que nenhuma outra equipe, Ferrari à parte, tem recursos financeiros e técnicos como a McLaren. Por enquanto. Bem provável que uma pausa de um ano, o que terminaria o contrato com a McLaren, daria Alonso a opção de verificar o mercado novamente para 2009 adiante. Renault ganha mais recursos… ou é vendida para a GM? BMW, Toyota, ou Honda finalmente vencem GPs? Adrian Newey transformou a Red Bull em equipe de ponta? Ele teria todas as opções ao seu dispor, descansado e faminto após um ano de férias da Formula Neurose.

Detalhe: o Ron logo, logo terá que fazê-lo desistir desta idéia, pois haverá dois GPs em solo espanhol a partir de 2008. Além do patrocinador espanhol da equipe, terá o Bernie Ecclestone nas costas fazendo pressão para que ele resolva logo essa situação, pois sem Alonso estes dois GPs serão um fracasso comercial. E o próprio Ron, que põe vitórias acima de tudo, não tem interesse de deixar Alonso escapar e ter que enfrentá-lo como concorrente depois.

Eu acredito que Alonso conquista o título e assim talvez se acalme, estará mais disposto e se reconciliar com o Ron, pelo menos encerrando as hostilidades. Como já disse antes: Alonso tem a minha admiração (o que é bem diferente de ser fã) por ser o piloto mais completo do grid. É o sucessor natural do Schumacher em habilidade e talento, cresceu enormemente nos ultimos três anos na parte técnica e em 2007 provou um dom tão essencial: O dom de entender e aplicar a politicagem nos padrões costumeiros da Formula 1.

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12 Gedanken zu “Alonso-Dennis: Nem namoro, nem amizade

  1. Sem esquecer que junto de Fangio vai ser o piloto que conseguiu titulos consectivos por equipes diferentes.

    Alias , excelente coluna.

    Concordo contigo , não precisa ser amiguinho do chefe

  2. Mário, mais uma vez meus cumprimentos pela maravilhosa coluna.
    Queria sua opinião sobre esses boatos da ida do Alonso para a Ferrari, no lugar do Massa. Acredita que possa ser realizado essa transação ainda esse ano, com Alonso pilotando para a Scuderia, já em 2008?

    Abraços

  3. Mario…. na minha opinião e vendo o pasado recente…. Só o Lauda´se aposentou e voltou bem…. veja o Mikka….. não acredito que esta seria a opção do Alonso… quanto ao resto…. bom o Hamilton é um bom piloto… se é „GENIO“… só o tempo dirá…. gostar mais do Hamilton do que do Alonso é bem mais que possivel… é provavel….

  4. Alain Prost parou em meados de 1991 e voltou em 1993… como campeão mundial.
    Aliás, Senna estava disposto a fazer o mesmo em 1992, já que não conseguiu a vaga na Willimas na mesma temporada, e voltar em 1994.

    E Alberto, não vejo isso acontecer. Alonso teria que passar mais um ano aprendendo as manhas e modo funcionamento dentro de uma nova equipe. Ou seja: começar tudo de novo. E tendo Räikkönen no mesmo equipamento, sem que possa impor status de número 1…?

    Esse Kimi é outro nível que o Hamilton, do qual até hoje não vimos nenhuma corrida de recuperação ou atuação convincente no molhado.

  5. Mario, o que há de errado com o Kimi neste ano?
    Cade o piloto que devorou Juan Montoya?
    Cade o piloto de Suzuka 2005?
    Cade o melhor piloto de 2003 e 2005?

    O que houve?? Eu esperava que ele fosse engolir o Massa.. mas os 4 estão dividindo as vitórias.. tudo bem os 4 são ‚primeiros pilotos‘ em suas equipes. Mas Kimi e Alonso deveriam se destacar. O que houve? Os pneus Bridgestone sao tao ruins? Kimi nao se adaptou a Ferrari?

    Cade o piloto empolgante de 2005??

  6. Bom, a pergunta está um pouco fora da época. Afinal ele venceu em Spa de forma convincente.

    Mas fora disto, acho que era depois do GP de Bahrein, o Kimi descreveu ao meu colega Heikki Kulta se sentir na F2007 como um atleta de pé tamanho 42 calçando sapato tamanho 48 querendo ganhar corrida de 100 metros…

    Foram modificando o „sapato“ durante a temporada, mas acredito que ainda seja um „44“. Quem sabe 2008 ele tenha um „calçado“ à altura para „correr os 100 metros“ da forma como lembramos.

  7. Nem namoro, nem amizade… hmmm, é só sexo? LOL!

    Brincadeiras à parte, amigo Bauer, mais um artigo excelente! Acredito plenamente naquilo que me dizes. Que há um fogo (quase) incontrolado dentro da McLaren, isso todos nós sabemos. Que ele é um piloto completo, isso é real. Mas há algo no meu instinto que isto pode acabar mal… o que aconteceria se ele tiver um precalço numa das últmas corridas, e o Hamilton aproveitar? Pira-se e vai gozar um ano de férias? Ainda há muitas perguntas sem resposta…

  8. Hahahaha, aos amigos do Portugal: O titulo faz referência irônica a um programa de TV aqui no Brasil. Na brincadeirinha convidam casais a se conhecerem um pouco no palco e depois de algum bláblá o apresentador pergunta „namoro ou amizade?“…

    Enfim, acredito que a pergunta mais dramática a ser respondida é justamente a sua obsrvação: O que o Alonso faz se perder o título para Hamilton…? Ficaria bem para a imagem dele „fugir“ da McLaren e do Hamilton?

  9. Minha nossa.. que raciocínio! rsss
    Falando em Kimi, tenho saudades dos duelos Alonso e ele. Tava vendo umas fotos de 2005, quando eles se alternavam entre primeiro e segundo do pódium.

    Nem preciso dizer o quanto também creio nesse terceiro título. Traduzo os seus três motivos em ‚Alonso está mordido!“.

    Só espero que Fuji não esteja assim tão escuro e venha 10 pontos mais. 🙂

    Ahh.. excelente! Tornastes minha leitura habitual sobre F1.
    Abraços!

  10. Como é bom ler seu texto Mário, vc retira os véus deixando bem claro o que vem acontecendo dede o início do relacionamento Alonso-Dennis. Como as vantagens em pequenos procedimentos e inclusive na parte psicológica que Lewis desfruta até hoje dentro da equipe e como Alonso em movimentos inteligentes vem neutralizando esses fatores e ganhando terreno dia-após-dia. Não compartilhar acertos foi decisivo para Alonso se impor como o melhor, e disto já não restam dúvidas, nem os mais ardorosos admiradores de Hamilton podem se esquivar da verdade de que faltam muitos degraus técnicos para o inglês se igualar ao bicampeão mundial: o asturiano Fernando Alonso.

    Parabéns pelo texto, suas colocações são bem feitas e nos deixa a impressão de que os assuntos foram bem esmiuçados antes de virem ao ar, e não fruto da pressa em colocar material confiando apenas na opinição de outros colegas jornalistas, como vejo em outros blogs.

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