Começou a guerra fria

massa.jpg Está nas bancas (não no Brasil, na Alemanha e países vizinhos) a ultima edição da revista Motorsport Aktuell, versão germânica da mais conhecida Autosport inglesa. Vem publicada matéria da minha autoria que analisa o desempenho de Felipe Massa, tanto nessas ultimas três voltas do GP da Europa como durante a temporada, levando a pergunta: Porque o Massa não está liderando o campeonato por dez pontos?

Obviamente o tom, da matéria vai bem na contramão (nenhuma novidade então) da matéria publicada pela revista Racing aqui no Brasil. Feita para um publico que não conhece as manhas do primeiro locutor brasileiro vender peixe como se estivesse em plena feira, coube explicar o entusiasmo e as expectativas que a vitória do Massa em Interlagos na etapa final de 2006 criou.

Segue uma analise de um início de temporada da Ferrari que dificilmente ocorreu de acordo com os planos. A falha mecânica na classificação (que irá se repetir mais duas vezes em dia de corrida no carro do Räikkönen) em Melbourne seguiu um problema sério de refrigeração na Malásia e no Bahrein. O aerodinamicista Nicolas Tombazis, na busca de cada vez mais aderência no solo e diminuição de área frontal, criou laterais tão radicais que o volume de ar que atravessava os radiadores era bem inferior ao necessário nestas condições climáticas extremas, o que obrigou a Ferrari até a manipular as relação das marchas e “esticar” as mais altas para diminuir a rotação por cerca de 1.500rpm para a duração da corrida. Imagine então fica um GP inteiro no vácuo de outro carro…

Esse detalhe explica muitos dos acontecimentos naqueles dois GPs. O Räikkönen sem pique na Malásia (motor já em decadência) e no Bahrein, onde a temperatura elevada no vácuo do Alonso afrouxou ainda mais o V8 da sua Ferrari. Justamente este fenômeno explica a tentativa de ultrapassagem um tanto histérica do Massa em cima do Hamilton em Sepang, queria evitar ficar grudado atrás da McLaren, mas acabou perdendo duas posições no final.

massa-alonso.jpg

Em Bahrein Massa consegue aproveitar a pole melhor, sai na frente e sem ninguém na frente pra atrapalhar o fluxo de ar teve um desempenho satisfatório do seu motor, apesar da falta de potência máxima devido ao corte de rpm. Em Barcelona a Ferrari trouxe o novo pacote aerodinâmico e o Massa vence após colisão na primeira curva com o Fernando Alonso. E Mônaco a F2007 estava em desvantagem perante a MP4-22 pela enorme diferença de distância entre-eixos, um terceiro lugar é satisfatório naquelas circunstancias.

Atravessamos o atlântico, só pra ver o Massa cometer a maior burrada do ano, ou melhor, a maior até agora. Mas sendo paulista, vai que uma luz vermelha lá não significa muita coisa… ERRADO, desqualificado e 6 pontos na certa jogados fora. Apesar de novos aerofólios (frente e trás) desde Montreal, as Ferraris não chegam sequer perto das McLaren. Mais uma vez o terceiro lugar, defendendo-se contra o Kimi, foi o melhor resultado possível.

Nos testes de Silverstone estréia uma nova asa traseira e as asinhas laterais ao cockpit ajudam a melhorar o fluxo do ar acima das laterais do carro, aumentaram a velocidade máxima. Mas na França Kimi vence por elaborar uma estratégia mais sábia com o Chris Dyer, ex-engenheiro do Schumi e agora braço direito do finlandês. Largou mais pesado, quando o Felipe parou nos boxes o Kimi estava com o carro leve marcando melhores voltas e quando foi para os boxes o brasileiro tinha que maneirar com os seus pneus “macios” para a ultima perna. A troca de posições decepcionou a torcida, mas era previsível. A dupla Kimi/Chris aprendeu a trabalhar a euforia latina de pole positions e uma liderança no início da prova a favor deles.

No GP da Grã-bretanha a Ferrari vem com uma traseira bem aperfeiçoada, mais estreite e mais baixa a parte traseira da carenagem permite um fluxo de ar melhor ao aerofólio, torna a F2007 anda mais eficiente e veloz em curvas de alta. Feita pra Silverstone. Mas não ia ser o GP do Massa, pois errou na classificação e antes da largada. Mas aí morre o motor do Massa no grid. Erro técnico declara a Ferrari depois, isso tem que melhor reclama ele. Foi isso mesmo que aconteceu? Ainda mais se sabemos que todo motor de F1 é inteiramente controlado por sistemas eletrônicos, até para impedir que o motor apague?

O drama de Silverstone

Pra entender melhor o que aconteceu ali é preciso rever o procedimento que os pilotos adotam na volta de apresentação. Todas as funções são reguladas para permitir o „max wheelspin“, ou seja, os pneus devem destracionar o máximo possível durante aceleração para aquecê-los melhor e assim ganharem aderência para a largada. Isto se obtém ao regular o controle de tração ao mínimo e o diferencial ao máximo. De volta ao seu lugar no grid o piloto regular no volante os valores que prefere para a corrida e o Launch-Control-System (sistema automático de largada) é ativado. Se o motor não estiver na marcha lenta pode surgir uma nuvem de gás (mistura ar/combustível) que, quando incendiada por uma refluxo de mistura das câmeras de combustão, começa a consumir o ar disponível na entrada de ar, o airbox, e o motor começa a perder rendimento.

Para evitar que o motor apague existe um soft chamado „Anti-Stall“. Este regula as mistura injetando mais combustível para acelerar o motor. No caso isto só ajudou a alimentar o fogo que acaba por consumindo todo o ar no airbox e o motor acaba apagando mesmo assim por falta de ar. Como isto é algo de incomum, presume-se que o Massa deu uma acelerada ao ativar o Launch Control o que acabou desencadeando toda essa reação. O resto é história: largou por ultimo, chegou no mesmo lugar que em Melbourne (5º) mas por algum motivo a mídia celebrou o show de ultrapassagens. Aliás, na vimos nenhuma ultrapassagem em cima das Renault ou do Heidfeld, isto aconteceu por estratégia. Mas vimos a tentativa falha de superar um piloto ainda relativamente inexperiente, o Kubica, defendendo de forma brilhante a 4ª posição contra o melhor caro do grid durante 10 voltas.

No Nürburgring o brasileiro marcou pontos importantes, mas cresce o número de pontos que deixou de marcar. Se forem adicionar os pontos jogados fora na Malásia, no Canadá e em Silverstone, assim como das duas vezes quando entregou a liderança na prova (Magny-Cours e Nürburgring), deveria estar liderando o campeonato por 6 pontos na frente do Hamilton. Difícil de imaginar um Piquet ou um Senna ter desperdiçado pontos valiosos desta forma, e entregar a vitória na fase final (mais 4 pontos) desencantou muitos brasileiros.

Nem tudo parece perdido, já que o Massa está em terceiro no mundial e se aproximo na pontuação do líder Hamilton em oito pontos. Mas se for comparar os resultados dos dois pilotos da Ferrari entre as duas falhas técnicas fulminantes do Räikkönen em Barcelona e no Nürburgring, não há ainda o porque contar com o apoio da Ferrari ao brasileiro. Entre Mônaco e Silverstone o Kimi venceu duas vezes e marcou 30 pontos contra zero vitória e 24 do Felipe. Räikkönen demonstrou ser o piloto que marca pontos mais regularmente dentro das possibilidades ao alcance. O Massa só tem como ganhar o apoio total da Ferrari se conseguir uma série de vitórias. E no Húngaroring isto parece improvável, pois o traçado é parecido com o de Mônaco, então favorecerá as McLarens.

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Pior: No GP da Europa o Massa perdeu duas batalhas em menos de meia hora. A ultrapassagem arrojada e bem sucedida do Alonso em cima do brasileiro e aplicar um puxão de orelha na sua qualidade de bicampeão contra um piloto que sequer é número 1 dentro da sua própria equipe deu início a uma guerra psicológica do formato como nos lembramos do Piquet e do Senna acirrarem as coisas fora das pistas contra seus adversários. O bate-boca após o GP da Europa foi a primeira fase de guerra fria entre Ferrari, McLaren e seus devidos pilotos. Os acontecimentos em volta do caso de espionagem serviram para alimentar a fogueira ainda mais.

Massa perdeu ali a chance de dizer um simples “sorry”, mesmo não concordando com a acusação de Alonso que o toque entre os dois, três voltas para o final, foi intencional. Ao pedir desculpas depois, e isto claramente não define a verdadeira posição de Fernando Alonso sobre o ocorrido, o piloto da McLaren fez papel de bom moço. E a FIA gosta disto. Massa no entanto prejudicou a si mesmo com o seu deboche, aplicando palavrões contra o espanhol, se auto-rotulou de descontrolado. Os diretores de prova terão isto em mente na próxima colisão que o Massa venha a se envolver. E ninguém duvida que isto aconteça.

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7 Gedanken zu “Começou a guerra fria

  1. Excelente post!
    Toda a avaliação, sobretudo a técnica, foi muito boa, bem interessante.

    Só acho que o pior que o Massa poderia dizer naquele momento era sorry. Não precisava xingar, mas sorry… em hipótese alguma. Seria como admitir a acusação de ter agido por má fé.

    Agora é seguir em frente e tentar recuparar o tempo perdido. Além, é claro, de esperar a decisão final do julgamento entre Ferrari e McLaren no final do mês. O campeonato ainda está em aberto.

  2. Interessante o seu relato, mas há alguma evidência de que o problema do Massa em Silverstone tenha sido erro de procedimento dele? Ou este tópico é apenas especulação sua? Outra coisa, concordar que o Felipe devesse ter pedido desculpas ao Alonso no GP da Europa é no mínimo insultuoso. O espanhol é que estava completamente errado em, 1º apontar a marca no carro em frente das câmeras, 2º acusar o Massa enquanto este o ia cumprimentar durante as pesagens. Isso não se faz, mostra a falta de caráter e a arrogância do espanhol, e o Massa teve toda a razão em brigar com ele. Palavrões não eram necessários, mas eu compreendo a indignação que o brasileiro deve ter sentido, e no calor do momento, acontece. Se o espanhol achava que havia problemas, que fossem conversar depois. Se há uma coisa que eu não suporto são pessoas falsas, querendo se fazer de bons samaritanos enquanto são na realidade verdadeiras cobras, manipuladoras, calculistas e fazedores de média.

  3. Já vi que ganhei um grande crítico por aqui…

    Não trabalho na bolsa de valores, portanto o meu ramo não é especulação. O que é divulgado neste blog são fatos pesquisados. Talvez lhe pareça estranho esta qualidade de informação em um blog, conforme o Estadão TODOS os blogueiros são esquisitões sem noção (!), mas nem por isto vou entrar na dança e copiar „notícias“ como fazem a maioria dos sites por aí.

    Não entendi a extensão do comentário, cujo conteúdo não tem a ver com este tópico. E o que foi colocado sobre os acontecimentos no Nürburgring foi respondido no devido tópico. E espero que atributos como „pessoas falsas“ „verdadeiras cobras“, „manipuladoras“, „calculistas“ e „fazedores de média“ não foram indiretas à minha pessoa…

  4. Olá,

    Em primeiro lugar, só gostaria de deixar claro que apenas estamos discutindo os assuntos aqui colocados, respeitando as opiniões de todas as partes, sem de forma alguma levar para o lado pessoal, e muito menos sem apelar à troca de „elogios“.

    O que eu disse tem a ver com parte do conteúdo deste tópico, e a mensagem final tem a ver, obviamente, com o Alonso, já que o trecho vem seguindo a crítica que eu fiz ao espanhol. Se se tratassem de críticas a você, seria direta, clara, e em outro parágrafo.

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