Revelações do poço das cobras

Outra cobra criada  Então o Jean Todt não está nada feliz com o veredicto da FIA? Bom, era previsível que ou ele ou o Ron Dennis sairiam reclamando lá da sede da FIA na „praça da concórdia“ (…) em Paris.

Em paddock de Fórmula 1 não existe anjinho! No popular: é tudo cobra criada…

Pode? O Todt agora está reclamando que devido ao vazamento de informações a McLaren soube, por exemplo, do assoalho movediço da Ferrari em Melbourne, aliás proibido por regulamento. Parece-me meliante reclamando de ter sido pego em flagrante e exigindo justiça…

Sugerir que a McLaren superou a Ferrari não por mérito próprio, mas porque prejudicaram a performance da Scuderia é no mínimo estranho. Ora, será que Monsieur está esquecendo que o projeto do F2007 começou a temporada tão falho que na Malásia e no Bahrein corria risco constante de superaquecimento? Tiveram até que „alongar“ a sexta e sétima marcha pra baixar o limite por uns 1.500rpm e assim sacrificando desempenho, pra poupar os motores. Explicarei esse detalhe melhor na 2a-feira.

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Coughlan admitiu que pediu informações ao Stepney sobre o sistema balanceamento de frenagem da F2007 e que os dois se encontram na Espanha onde fora entregue o tanto citado dossiê de 780 páginas, uma documentação detalhada com desenhos e gráficos sobre o desenvolvimento da F2007, praticamente um manual de usuário detalhadíssimo. Stepney, que queria chamar a atenção a mais infrações de regulamento por parte da Ferrari, não revelou como obteve as informações.

Perante o conselho a McLaren confirmou que o Coughlan vivia recebendo e-mails do Stepney e que a empresa se viu obrigada a instalar um Firewall para barrar informações que continuavam chegando e que mandaram o diretor técnico de pedir o Stepney de parar de enviar estas informações. Parece perfeitamente coerente, assim que a McLaren soube o que está acontecendo tomou providencias cabíveis. Até o Todt deveria reconhecer que perante uma situação dessas a atuação foi correta por parte da McLaren, já que não existem provas que a McLaren incentivou essa troca d informações.

Mas o conselho entendeu já a posse destes documentos como violação contra o artigo 151c do código esportivo internacional. O Todt agora está chorando feito neném que perdeu a chupeta, que não é justo ter que ainda provar que usaram as informações de forma vantajosa. Ora, sorte a dele que não sou eu o chefe dele. Pois eu perguntaria como é possível um funcionário do segundo escalão contrabandear pela portaria (ou extrair do sistema de TI) um dossiê completo de informações confidenciais sem que jamais alguém notasse? Como teve acesso em primeiro lugar?

Até agora ninguém falou, então faço eu o começo: Essa história não passa de uma demonstração de incompetência por parte da Ferrari. Incompetência de tratar documentos sigilosos e de grande importância ao sucesso da Scuderia, o próprio Todt afirma isto, com a devida cautela e seriedade. Incompetência de RH também, pois esta história infeliz só pôde acontecer graças ao retorno à bela e velha tradição de politicagem interna que regia a Ferrari durante décadas e impedia qualquer desempenho eficiente. Pois é, e recolocação de italianos nos cargos mais importantes da Scuderia parece a reiniciação do ciclo, estão voltando à guerra fria interna lá em Maranello.

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Sendo assim, o Todt espalhando a sua indignação sobre o veredicto pela mídia é o flagrante do que vive acusando o Ron Dennis: hipocrisia pura. Como ele imagina que a diretoria de uma empresa tenha controle total sob o que cada um das centenas de funcionários faz? Já que ele mesmo não soube conter o vazamento de informações. Ele quer ver uma punição da McLaren sobre enquanto aos atos do Coughlan, mas na verdade faz todo esse barulho pra desviar a atenção da própria incapacidade de manter a casa em ordem. E tudo isto logo após assumir a presidência da Ferrari.

Algo mais sugere que o Todt passou do auge da sua atuação competente como chefe de equipe. Pois dificilmente ele ganhará causas nas cortes italianas e inglesas se ele mesmo assinou um pacto com a McLaren, do qual ele agora se arrepende. Chapeau ao Ron Dennis, que logo entendeu a bagunça que este assunto viria a causar e, perante uma situação irreversível, fez o que qualquer CEO competente faria: Procurou garantir uma base legal estável para a sua empresa. Ele propôs um acordo ao francês de pararem de se bicar e resolver impasses como esse do assoalho em Melbourne sem a atenção pública que sempre ocorre quando se faz uma queixa oficial na FIA. O Todt está tão furioso porque assinou tal acordo no dia 9 de junho o que praticamente isentou a McLaren de denunciar o assunto junto a FIA. Nas causas sendo promovidas contra a McLaren isto não cairá favorável.

Não se ria melhor se o Todt baixasse a bola, em vez de chorar tanto? Afinal, sob a égide do francês a Ferrari demonstrou uma série de atitudes que revelam claramente o quanto o próprio Todt visou sempre e unicamente tirar o máximo de proveito. E em alguns casos a conduta levou a reuniões do conselho por questões de conduta.

Os mais graves:

22 de outubro de 1999 – O escândalo dos defletores fora das medidas estabelecidas no regulamento, o que o Ross Brawn até concedeu como fato perante a mídia. 

26 de junho de 2002 – demonstração grotesca de jogo de equipe (proibido) no GP da Áustria privando o Rubinho da vitória merecida. Alguém duvida o quanto aquilo prejudicou a imagem da Fórmula 1?

Outras ocorrências revelam os modos de Jean Todt: 

26 de outubro de 1997 – Schumacher provoca colisão com Villeneuve na decisão do mundial e é apoiado por Todt, que insiste que aquilo não passou de um incidente de corrida. Não foi o que o conselho disciplinar da FIA viu, Schumi acabou banido do resultado do mundial;

15 de março de 2005 – A Sauber flagra a Ferrari em um teste em Fiorano enquanto havia acordo formal entre todas as equipes de não efetuar testes na semana de um GP. Todt simplesment dclara que não há mais acordo;

19 de junho de 2005 – Após uma série de acidentes e dúvidas de segurança sobre os pneus Michelin a Ferrari se recusa a concordar com uma mudança de trajeto para viabilizar o GP dos EUA que em seguida virou uma farsa na ausência de todas as equipes fornecidas pela Michelin;

26 de março de 2006 – Após as imagens de TV denunciaram o uso de uma asa dianteira flexível (proibida por regulamento) nos dois primeiros GPs da temporada e com isto ganhando no calor de Bahrein e da Malásia uma vantagem considerável, a Ferrari aparece com uma asa dianteira modificada em Melbourne escapando possíveis sanções da FIA que, aliás, nunca investigou o ocorrido devidamente.

27 de maio de 2006 – O funcionário mais ilustre e bem pago da Ferrari „estaciona“ a sua F2006 na Rascasse nos últimos minutos da classificação na tentativa de conservar a pole e prejudicar os concorrentes.

„Peraí“, já escuto todo mundo chiar, „o que tem isso a ver com o caso de espionagem?“ Ué? O Todt não quer uma punição da empresa McLaren pelos atos de um funcionário? O Todt na época deu ordens ao Schumacher pra fazer aquilo? Senão, o alemão tinha a aprovação de Todt para tal comportamento?  Não? Então está agora reclamando de que? Na época também somente o tal „funcionário“ foi punido, não a empresa pelo qual trabalhava…

Repito, em paddock de Fórmula 1 não existe anjinho! No popular: é tudo cobra criada!

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4 Gedanken zu “Revelações do poço das cobras

  1. Acho que nenhum desses casos é tão grave quanto à espionagem do Coughlan. Se a McLaren usou as informações da Ferrari para benefício próprio, estamos diante da maior falcatrua da história da F1! Eles não sabiam apenas do funcionamento disso e daquilo, os documentos falavam sobre tudo. O buraco é bem mais embaixo.

    Anjinho lá não existe, mas tem que haver um limite para as coisas, e a McLaren pode ter ultrapassado esse limite, o difícil vai ser alguém provar.

    Só um a ressalva:
    „19 de junho de 2005 – Após uma série de acidentes e dúvidas de segurança sobre os pneus Michelin a Ferrari se recusa a concordar com uma mudança de trajeto para viabilizar o GP dos EUA que em seguida virou uma farsa na ausência de todas as equipes fornecidas pela Michelin“

    Nesse caso a Ferrari não fez nada ilegal, pelo contrário, o absurdo seria mudar o traçado da pista. Pela primeira vez na história do automobilismo estaríamos presenciando uma corrida disputada num traçado cujo qualifying foi disputado em outro. Você não pode simplesmente colocar uma chicane e mandar os pilotos correrem. Os treinos livres servem para isso, para o piloto buscar o ponto de freada de cada curva, aprender a contronar cada curva, acertar o carro de acordo com a pista etc etc etc. Se você inventa uma curva no dia da corrida, você bagunça tudo. Imagina o que teria de batida se colocassem uma chicane lá… Definitivamente não poderia dar certo, não era a atitude correta.

    A culpa nesse caso foi da Michelin e da FIA. A fabricante era responsável pelos pneus que não poderiam ser usados naquela pista; e a entidade era responsável pelo regulamento, que não permitia a troca dos jogos de pneus nem mesmo por razões de segurança.

    Putz, falei demais… mas esse tipo de coisa é polêmico mesmo, sempre rende assunto.

    Na 2ª eu passo para ler sobre o superaquecimento do motor da Ferrari na Malásia e no Bahrein. Não estou lembrado disso… É, rapaz, o campeonato não tá fácil pro pessoal de Maranello, não.

    T+

  2. Só relembro que jogo de equipe em 2.002 não era proibido ainda não, proibiu-se depois do lamentável fato…

    Alex Sotto

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