Os dois golpes da raposa

alonso-gp-europe.jpg  O Felipe Massa deve estar se perguntando até hoje o porquê o Fernando Alonso resolveu chamar a atenção dele logo em frente às câmeras. A minha suspeita é que o baixinho, de estrutura mais simplesinha, não entendeu a manobra política do bicampeão, que demonstrou versatilidade na pista… e fora dela  

Alonso foi estático, vibrou muito, mas não perdeu de vista aproveitar a presença dos câmeramen no parc fermé e na sala ao lado do pódio. Elegante, educado e sem levantar a voz, calmamente puxou verbalmente a orelha do adversário derrotado. “Isto não se faz”. E pela segunda vez o brasileiro caiu na armadilha. Pouco antes Massa teve que engolir que o Alonso o passou pelo lado de fora e, o bico do MP4-22 já estava na frente e na beira direita da pista, resolveu ir ao encontro da lateral da McLaren. Todo mundo viu isto, a constatação não passou de um fato. Está tudo em vídeo tape.

  

Em vez de um calmo e igualmente educado “sorry, não foi intencional”, o Massa cai na armadilha, começa a soltar palavrões, provoca com comentários cínicos, dando tapinhas no ombro do Alonso que sequer lhe concedeu olhares. Ele podia ter chamado o Massa para um canto depois ou até cochichado algo no pódio, mas não era isso que el campeón queria. Ele fez questão de impor em público a sua autoridade de bicampeão perante um cara que ainda tem que lutar pra não virar o próximo eterno número dois da Ferrari.

 

 

E foi também uma medida de precaução, uma grandiosa demonstração que para ser um piloto de formato na Fórmula 1 é preciso braço E inteligência. Se o Massa não já tinha uma reputação de estourado dentro e fora do carro, domingo lá naquela salinha ele mesmo ajudou a aplicar o carimbo em si mesmo.

Alonso vibrante, Massa esfumeando

A jogada de mestre veio no pódio, todo mundo sorridente, Alonso vibrante, Ron Dennis aliviado, o Mark Webber superfeliz, só o Massa com cara de revoltado. Quem não tinha presenciado a cena antes, achava que ele estava mordido por perder a corrida, que seria um mau perdedor. Próximo golpe do príncipe das Astúrias: Ao sentar na sala de conferências ele pede formalmente desculpas, diz que estava nervoso quando saiu do carro (é mesmo? Nem notei…) e que era uma dessas coisas de corrida mesmo. Me engana que gosto… Os fatos não mudaram, muito menos o ponto de vista do Alonso, isso ficou transparente. Mas a raposa asturiana sabe que uma desculpa, mesmo de dedos cruzados debaixo da mesa, cai bem com os dirigentes.

  

Como será que este episódio permanecerá na memória das pessoas e, mais importante ainda, dos diretores de prova? Que o Massa novamente cometeu uma barbeiragem (fora da Malásia, Espanha e do Canadá…), e se alguém mandar traduzir o bate-boca ainda vai pagar alguns mil dólares de multa por má conduta ou, quem sabe, vão colocá-lo sob provação. Na próxima colisão do Massa, e ninguém duvida que ela acontecerá, o “moçinho” Alonso nem vai ter que chamá-lo de vilão, já está condenado a este papel.

 

 

Tenho que admitir que estou cheio de admiração, foi um golpe duro na pista e um nocaute político. E sem que o adversário tomasse notícia do que realmente aconteceu. Eu gostei. Vamos ver o que a mídia internacional achou:

  

ESPANHA:

„El País“: „Alonso, furioso, fez uma excelente corrida e provou ser imbatível na chuva.“

 

„El Mundo“: „Alonso, o Deus da chuva, vence uma das provas mais emocionantes dos últimos anos.“

 „AS“: „Alonso, o Harry Potter da Formula 1, deu uma lição de magia na pista.“

 

„Marca“: „Com essa vitória de herói Alonso demonstrou sua autoridade.“

 

ITALIA:

„La Gazzetta dello Sport:“ „Super Alonso. Um show de ultrapassagem que serviu de lição ao Massa.“

 

„Tuttosport“: „Alonso e Massa – que show… e que bate boca. Chove e a Formula 1 volta a emocionar.“

 

„La Repubblica“: „Chuva e golpe de mestre: Alonso triunfante. Massa e Alonso se combatem dentro e fora da pista.“

 

„Il Secolo XIX“: „Ferrari é a mais forte, Alonso é o melhor.“

 

„L“Unità“: „Alonso é o rei da chuva. E a Ferrari naufragou.“

 

GRÃ-BRETANHA:

„The Times“: „Alonso enfrenta a tempestade e diminui distancia pra Hamilton na tabela.“

 

„Daily Telegraph“: „Alonso reina na enchente. No dia do caos meteorológico no Nürburgring ele demonstra habilidade impressionante.“

 

„Daily Mail“: „Fernando Alonso comemora uma vitória fenomenal no caótico GP da Europa.“

 

„The Guardian“: „Alonso triunfante na chuva mostra espetáculo nas voltas finais e acaba com o bom humor de Massa.“

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6 Gedanken zu “Os dois golpes da raposa

  1. (Comentário 1) Te dou razão.

    As atitudes do Alonso não são dignas de nenhuma simpatia. Por mais astuto que possa parecer, não é nada além de falta de caráter. Ele é na verdade „el cabrón“, e infelizmente o mundo está cheio de outros iguais. Eu ainda dou um voto de confiança ao fato de que o Massa teve problemas após o último pit-stop, afinal, ele foi bem em todo o resto da prova, mesmo com chuva. No que diz respeito ao Alonso, ultrapassar alguém 2 segundos por volta mais lento, não é para tanto alarido. Outra coisa que não se pode dizer é se o toque entre ele e o Massa foi ou não intencional, só pelo fato de estar registrado pelas câmeras. Supondo que o Felipe tinha mesmo problemas, e somando o fato de a pista estar muito molhada, o evento pode apenas ter sido decorrente de uma manobra corretiva. O que podemos afirmar é que estavam disputando dois pilotos que queriam a todo custo chegar em primeiro.

    Mas para mim já ficou claro que o nosso colega, autor deste Blog, além de „Alonsista“ (ao tratá-lo por „Nando“ até me faz lembrar do Galvão Bueno e o „Schummy“) é um pouco „McLarista“ e „anti-Ferrarista“, para não dizer „anti-Todtista“ e „anti-Massista“.

    Eu respeito as suas opiniões e te dou alguma credibilidade por você ter alguma experiência no meio da Fórmula 1, mas as suas opiniões e cenários deixam a desejar uma boa dose de imparcialidade, e contra isso, não há experiência que resolva.

  2. Respeito opiniões contrárias, mas tenho alguns comentários a replicar quando se trata de avaliar a minha própria posição. Não o fiz com o comentário subjetivo em sí do Marco, mas o farei agora, pois para julgar imparcialidade é preciso um alto grau de coerência. O que faltou no seu depoimento, André. Por partes:

    – Se o Brasil inteiro chama o Barrichello de „Rubinho“ e outro de „Massinha“, não vejo como posso ser acusado de subjetividades por mencionar o apelido que o Alonso já tinha quando o conheci na época do kart e que mais recentemente sofreu mutação para „Nano“. Falta um pouco de coerência nesta afirmação sua.

    – Acho interessante essa posição crítica enquanto ao Alonso, que está sendo obrigado a travar uma batalha política dentro da equipe pra defender o seu título, postura imprescindível na F1. E demonstrada por outros antes. Agora me pergunto: Quando o Piquet montou as artimanhas dele para se sobre-sair enquanto ao Mansell em 1986 e 1987, era diferente? E o Senna contra o Prost na McLaren e depois na briga pelo cockpit da Williams? Alguém aqui no Brasil reclamou? Ou preocupou-se com o lado do inglês ou do francês? Não precisa responder…

    – Conheço a pista de Nürburgring da perspectiva do cockpit, não de um Fórmula 1, mas de F3 pra baixo. É uma curva que permite vários traçados. Alonso escolheu o lado direito da pista e somente manter o carro na pista e ainda conseguir passar pela metade o Massa por fora naquele trecho e na parte úmida da curva, desculpe a minha insistência, mas aquilo foi uma demonstração de extrema habilidade.

    – Onde na pista o toque aconteceu entre os dois, não muito bem visível pelo posicionamento da câmera de TV, é um trecho reto onde cabem três carros lado a lado, fato que já presenciei de bem mais perto do que desejava na hora…! Alonso estava com as rodas direitas encostado na faixa branca. E mesmo assim o Massa, que estava na linha de dentro, na faixa seca de uma curva elevada, toca na McLaren DEPOIS da curva? Finge por um momento só que você NÃO É brasileiro: Tem algo de errado com a reclamação do Alonso? Não, ele tinha razão em fazer o comentário. E não passou disto. Ou você sabe de algum protesto oficial do espanhol contra o Massa?

    Se você for coerente na sua busca de objetividade terá que admitir isto: O Alonso já provou ser um grande campeão. Está provando agora que não vai fazer papel de trouxa pra ninguém.

    E como disse em outro tópico (talvez valha a pena ler TUDO antes de me acusar de subjetividades): não sou torcedor, nem de um, nem de outro, a única coisa que quero ver em domingo de corrida (seja qual for a categoria) é um bom pega, pilotos demonstrado habilidade e que o melhor seja triunfante no final das contas. Pronto. Avaliar todo o resto cabe a quem está bem informado.

    Talvez seja esta a dica que devo dar, aliás, a todos os fãs da Fórmula 1: Verifique as suas fontes, preste atenção se não está comprando o peixe (vencido) que estão precisando vender, opte por uma lagosta… ou uma picanha… e saboreie de verdade!

  3. Bom, apesar dos desentendimentos, aqui vai minha opinião:

    1 – Fernando Alonso é um ótimo piloto. Caso contrário não seria bi-campeão sobre o maior piloto da história. Não me entenda mal, respeito e admiro Michael Schumacher, mas dois títulos disputados contra um exímio piloto é algo para se orgulhar.

    2 – Felipe Massa, mais uma vez quero deixar claro que essa é minha opinião, não tem o que um piloto campeão precisa. Falta aquela estratégia bem arquitetada, aquela frieza de entrar na pista e simplesmente saber o que vai acontecer. Esse episódio provou o contrário, mostrando um Felipe Massa extremamente compulsivo e rancorento. Ele fez a manobra errada (até onde me lembro, ele tangenciou deixando fora para Alonso, se estou errado me corrijam) e queria ter razão. Minha opinião: Coisa de moleque mimado.

    3 – Sinceramente, André, problemas? Massa não tinha problemas. Ele estava com uma regulagem de asa dianteira mais „branda“ que a de Alonso e por isso não obteve o mesmo desempenho. OU, e preste atenção, OU, estava com receio. Problemas no carro? Ele andou bem a prova toda, só porque perdeu rendimento devido à um mau ajuste do carro (creio eu, pois piloto que é piloto toca até o fim) teve problemas. Alonso fez uma prova excelente, ajudado pelo mau tempo metereológico, quando parou no box, pois reduziu algo em torno de 5 segundos para 2 segundos. Ao estilo Schummy. E depois fez o que deveria ser feito.

    4 – André, não quero que isso soe pessoal, mas com certeza vai soar, então desculpas antecipadas: Não defenda o Massa só porque ele é brasileiro. Tire esse sentimento de nacionalismo fétido da sua cabeça e analise a situação com um sem nação e um sem escuderia.
    Imagine: se Alonso tivesse por dentro e Massa por fora, quem estaria errado? Para que fique mais claro ainda, se o piloto de dentro escapa o traçado e toca o piloto fora, quem está errado? O piloto de fora não tem muita alternativa, não é mesmo?

    Em suma, Parabéns Nano. Massinha, fica mais calmo que domingo tem mais.

    Mário, parabéns pelo excelente blog e pela (apesar de contestada) imparcialidade nos comentários.

    Abraços

    Felipe

    P.S.: Alguém tem ingressos Gp Brasil sobrando? Já esgotaram e eu fiquei sem…

  4. „Não defenda o Massa só porque ele é brasileiro.“

    Que triste vontade de rir. Não leiam o que não está escrito. Se de tudo o que eu disse, foi isso o que vocês entenderam, acho que não vale a pena gastar aqui 1h escrevendo um texto suficientemente didático para deixar claro tudo aquilo que eu disse, com os devidos pingos no ís. Há uma coisa que existe entre gostar ou não dos atos de uma pessoa, que é uma certa sensibilidade em perceber a profundidade dos pequenos atos de cada um, aquela „verdade“ por trás do pano, que os mais pragmáticos têm maior dificuldade em enxergar. Nem sempre o que se faz é o que conta, mas sim como se faz, e é isso o que me faz não gostar do Alonso. Se por outro lado alguém ficou com a impressão de eu ser „Massista“, também está profundamente enganado.

    Volto a dizer que respeito as vossas opiniões, mas não concordo com elas pelo que já foi dito. Agora, em relação à interpretação que dão ao que eu escrevo, aí já não posso fazer mesmo nada.

  5. Ah, só mais uma coisa, não faz o menor sentido comparar o Alonso com o Schumacher. Em 2005 a Ferrari era muito inferior, e em 2006 venceu quem teve mais sorte e menos problemas. Não tenho preferência por nenhum dos dois pilotos mas quem proporcionou maior espetáculo em 2006 foi o alemão.

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